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terça-feira, 23 de julho de 2013

A lucidez revolucionária de um Prelado

Estou literalmente impressionado com o que assisti, na noite de ontem, 22, pela televisão, mais especificamente com a entrevista apresentada no programa Roda Viva, da TV Cultura, dada por um jornalista católico, fervoroso praticante, uma vez que é um Prelado, ainda que emérito. Trata-se de um octogenário da mais alta lucidez e mais ainda: Revolucionária, pela sua idade, pelo seu tempo e, sobretudo pela sua condição. 
No alto dos seus oitenta anos de vida e de seus 54 de vida sacerdotal, dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC),  simplesmente detonou ao participar do programa, em que pese estarem na bancada alguns de seus velhos companheiros jornalistas, como Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo, e Ricardo Kotscho, da Revista Brasileira, além, obviamente, do apresentador Mario Sérgio. Mas em que pese às petecas levantadas pelos três, a fim de que dom Angélico pudesse acertar, o programa valeu a pena ter sido visto. 
Dom Angélico mostrou-se, como nunca, atualíssimo e principalmente arraigado com a situação atual vivenciada, não só no Brasil e no mundo, mas pelo brasileiro em si. Em que pese ter dado algumas puxadas de saco na atual ocupante do Palácio do Planalto e seu antecessor, e s recusado a tecer comentários sobre os atuais ocupantes dos Palácios  dos Bandeirantes e das Laranjeiras. 
Também não poderia ser de outra forma, haja vista ter sido dom Angélico sempre comprometido com as causas sociais, desde sua época de jovem em Saltinho, na direção dos jornais católicos pelos quais passou, e em especial pela sua Luta Operária, em que ele mesmo enfatizou que “saímos às ruas gritando: o povo unido, jamais será vencido!” 
Dentro de sua lucida sabedoria canônica, não enfatizou claramente, que a Santa Sé é contrária ao aborto e a união entre pessoas do mesmo sexo, mas sim que “a Igreja é a favor da Vida”.  Também não disse quais as mudanças clericais precisam ser aplicadas, quer de imediato, quer a médio ou em longo prazo, mas sim que elas precisam acontecer, conforme o Bispo de Roma assim apregoa.  Também não entrou nas falcatruas vivenciadas no estado do Vaticano, envolvendo a Santa Sé, e muito menos sobre os escândalos sexuais que envolvem integrantes da instituição. Limitou-se a enfatizar que isso existe em vários setores da sociedade.
Defendeu sim que a juventude vá às ruas para reivindicar, assim como todas as parcelas da sociedade, mas mostrando a cara. 
Aprovou e defendeu as posições populistas adotadas pelo cardeal Bergoglio, que classifica como sendo franciscanas, realmente, ou seja, uma opção pelos pobres, que a Igreja deve adotar em que pese não ter concordado com a afirmação de que ela, Igreja, deva sair das sacristias e agir junto aos fiéis. Mas criticou os ditos evangélicos que fazem da religião o que ele chamou de “concessionária de veículos” e de Jesus um agente dessas concessionárias, com a promessa de vida próspera, rica e miraculosa. 
Dom Angélico foi mais além e sentenciou que até mesmo entre os doze apóstolos teve corrupto que colocava dinheiro na cueca, no caso Judas Iscariotes, que havia ainda quem só chegasse atrasado e dissesse que muita coisa é invenção de mulher (Tomé). E que se tivesse sido Reitor daquela turma o primeiro a ser excluído seria Pedro, até porque dormiu quando Jesus mandou que vigiasse. 
Sobre a investidura das mulheres no sacerdócio, saiu-se pela tangente dizendo que Jesus foi quem mais defendeu a mulher, citando várias passagens bíblicas, desde o apedrejamento da adultera, ao cântaro de água da samaritana, e ainda que a Igreja tem reconhecido a posição da mulher, sobretudo desde o reconhecimento da presença marcante de Maria Madalena na vida da própria Igreja, enquanto instituição. E ainda citou Paulo aos Romanos, em que apresenta a diaconisa como representante da Igreja. Todavia, se posicionou a favor de que não celibatários sejam elevados aos cargos de ministradores dos sacramentos, sem, no entanto citar ou usar textualmente os vernáculos: padre ou sacerdote. 
Deu sim dom Angélico Sândalo Bernardino uma lição aos atuais ocupantes das várias esferas do Clero Romano, que se acham o suprassumo da cocada preta, sob suas mitras cintilantes, seus anéis pomposos, e se esquecem de que como “pescadores de homens” devem se ater ao pó das sandálias.

Foto: Google