Estou literalmente impressionado com o que assisti, na noite
de ontem, 22, pela televisão, mais especificamente com a entrevista apresentada
no programa Roda Viva, da TV Cultura, dada por um jornalista católico,
fervoroso praticante, uma vez que é um Prelado, ainda que emérito. Trata-se de
um octogenário da mais alta lucidez e mais ainda: Revolucionária, pela sua
idade, pelo seu tempo e, sobretudo pela sua condição.
No alto dos seus oitenta anos de vida e de seus 54 de vida
sacerdotal, dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC), simplesmente detonou ao participar
do programa, em que pese estarem na bancada alguns de seus velhos companheiros
jornalistas, como Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo, e Ricardo Kotscho, da
Revista Brasileira, além, obviamente, do apresentador Mario Sérgio. Mas em que
pese às petecas levantadas pelos três, a fim de que dom Angélico pudesse
acertar, o programa valeu a pena ter sido visto.
Dom Angélico mostrou-se, como nunca, atualíssimo e
principalmente arraigado com a situação atual vivenciada, não só no Brasil e no
mundo, mas pelo brasileiro em si. Em que pese ter dado algumas puxadas de saco
na atual ocupante do Palácio do Planalto e seu antecessor, e s recusado a tecer
comentários sobre os atuais ocupantes dos Palácios dos Bandeirantes e das Laranjeiras.
Também não poderia ser de outra forma, haja vista ter sido
dom Angélico sempre comprometido com as causas sociais, desde sua época de
jovem em Saltinho, na direção dos jornais católicos pelos quais passou, e em
especial pela sua Luta Operária, em que ele mesmo enfatizou que “saímos às ruas
gritando: o povo unido, jamais será vencido!”
Dentro de sua lucida sabedoria canônica, não enfatizou
claramente, que a Santa Sé é contrária ao aborto e a união entre pessoas do
mesmo sexo, mas sim que “a Igreja é a favor da Vida”. Também não disse quais as mudanças clericais
precisam ser aplicadas, quer de imediato, quer a médio ou em longo prazo, mas sim
que elas precisam acontecer, conforme o Bispo de Roma assim apregoa. Também não entrou nas falcatruas vivenciadas
no estado do Vaticano, envolvendo a Santa Sé, e muito menos sobre os escândalos
sexuais que envolvem integrantes da instituição. Limitou-se a enfatizar que
isso existe em vários setores da sociedade.
Defendeu sim que a juventude vá às ruas para reivindicar,
assim como todas as parcelas da sociedade, mas mostrando a cara.
Aprovou e defendeu as posições populistas adotadas pelo cardeal Bergoglio,
que classifica como sendo franciscanas, realmente, ou seja, uma opção pelos
pobres, que a Igreja deve adotar em que pese não ter concordado com a afirmação
de que ela, Igreja, deva sair das sacristias e agir junto aos fiéis. Mas
criticou os ditos evangélicos que fazem da religião o que ele chamou de “concessionária
de veículos” e de Jesus um agente dessas concessionárias, com a promessa de
vida próspera, rica e miraculosa.
Dom Angélico foi mais além e sentenciou que até mesmo entre
os doze apóstolos teve corrupto que colocava dinheiro na cueca, no caso Judas Iscariotes,
que havia ainda quem só chegasse atrasado e dissesse que muita coisa é invenção
de mulher (Tomé). E que se tivesse sido Reitor daquela turma o primeiro a ser excluído
seria Pedro, até porque dormiu quando Jesus mandou que vigiasse.
Sobre a investidura das mulheres no sacerdócio, saiu-se pela
tangente dizendo que Jesus foi quem mais defendeu a mulher, citando várias
passagens bíblicas, desde o apedrejamento da adultera, ao cântaro de água da
samaritana, e ainda que a Igreja tem reconhecido a posição da mulher, sobretudo
desde o reconhecimento da presença marcante de Maria Madalena na vida da
própria Igreja, enquanto instituição. E ainda citou Paulo aos Romanos, em que
apresenta a diaconisa como representante da Igreja. Todavia, se posicionou a
favor de que não celibatários sejam elevados aos cargos de ministradores dos
sacramentos, sem, no entanto citar ou usar textualmente os vernáculos: padre ou
sacerdote.
Deu sim dom Angélico Sândalo Bernardino uma lição aos atuais
ocupantes das várias esferas do Clero Romano, que se acham o suprassumo da
cocada preta, sob suas mitras cintilantes, seus anéis pomposos, e se esquecem
de que como “pescadores de homens” devem se ater ao pó das sandálias.
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